A última (por enquanto) cartada de Filipe Nyusi

A imagem fotográfica de dois homens sentados em duas cadeiras de campismo, tendo como pano de fundo a floresta verde das matas de Gorongosa começou a ficar viral ao princípio da noite de Domingo último. E promete continuar a circular no mundo dada a sua importância. Não era para menos.

O Presidente Filipe Nyusi e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, no culminar de uma estratégia discreta e que exige paciência e envolve elevados riscos políticos para ambos, acabavam de dar mais um passo visando a consolidação de uma paz efectiva no país.

Despido de todos os conselhos que os manuais de protocolo de Estado recomendam, Filipe Nyusi juntou o útil ao agradável. Uma vez que estava nas proximidades do esconderijo onde vive Afonso Dhlakama, combinou com este uma visita de cortesia nas condições atípicas em que vive o líder da nossa oposição.

Um comunicado expedido pelo Gabinete de Imprensa de Filipe Nyusi resumia em três parágrafos o espirito deste encontro de reconciliação entre irmãos desavindos, dando a entender que os problemas que dividem o governo e a Renamo estão próximos de encontrarem solução.

Nunca ninguém imaginou ser possível uma iniciativa presidencial cheia de riscos e de preconceitos como o fez Nyusi, ao embrenhar-se pelas matas de Gorongosa à procura de um frente a frente com Afonso Dhlakama.

Se olharmos para o passado, há razões que justificam o cepticismo: Dhlakama já disse que não reconhecia Nyusi, que não ia governar até ao fim do mandato, já disse que os militares do Governo são umas Mariazinha e periquitos que ele pode varre-los em 24 horas. Já banalizou ao máximo o Estado moçambicano e já deu sinais de sobra de que pode vulgarizar e inviabilizar o Estado.

Do lado do governo, homens que aparentam estar sob seu comando já provocaram incidentes graves a comitiva de Dhlakama, pondo em risco a sua vida. Estes sinais que felizmente pertencem ao passado, legitimavam dúvidas e recomendavam uma negativa a qualquer ideia de o PR ir “ajoelhar-se” ao velho general.

Mas Nyusi optou pela prudência e pela lógica. Como pai da Nação, deve atender a todos os seus filhos independentemente dos seus defeitos, das suas dificuldades, das suas atitudes e virtudes. Mais do que olhar o passado e contabilizar a má imagem que nos traz, Nyusi prefere privilegiar o presente e o futuro para construir novas pontes de paz. Dá uma oportunidade a paz.

Não é certo que tudo vai dar, mas um homem ousado vale por dois. Um homem arrisca tudo pela paz e estabilidade da sua família e Nyusi arrisca todo o seu presente e futuro político em busca de paz para o país e isso louva-se, seguramente.

O PR jogou uma cartada difícil. Dá para percebermos o seu discurso recente, segundo o qual o diálogo, as vezes, acarreta cenários imorais. Dá para percebermos o que queria dizer quando anunciou que aproximam-se dias decisivos para a paz. Dá para pensarmos no que queria dizer em Manica quando disse que ele não deixa de ser PR por falar com Dhlakama, por lhe aproximar...Para bom entendedor...Filósofo este engenheiro.

Só esperamos que Afonso Dhlakama compreenda todo este esforço do Presidente da República. Só esperamos que ele e os seus não vejam na atitude do Chefe do Estado um sinal de fraqueza e de rendição, pois bem sabemos que os radicais que militam no sistema ainda não acreditam que Afonso Dhlakama  opta pela paz e pela desmobilização efectiva dos seus guerrilheiros.

Filipe Nyusi jogou a sua última cartada. Última, por enquanto, pois podem estar a caminho outras tantas. Espera-se que Afonso Dhlakama também devolva a bola jogando a sua última cartada, no sentido de desmilitarizar a Renamo, ou dando sinal nesse sagrado objectivo. Pois sem a desmilitarização da Renamo, o país não será normal, mesmo que haja governadores eleitos ou o que quer que seja, que dite o futuro figurino da descentralização.

Estão pois de parabéns os dois líderes. Acarinhemos o seu gesto. Venham mais encontros porque são boas surpresas para o país. Aos que duvidam e põem em causa a ida do PR a Gorongosa, perdoamos-lhes por tão aguda falta de responsabilidade e de sensibilidade para com os assuntos da paz. Um dia irão compreender o alcance da iniciativa presidencial.